O texto abaixo foi escrito pelos alunos André Narcizo, Fernanda Martins, Luiz Ribeiro e Julia Gamboa na aula do dia 27 de abril.
rir zombar tirar sarro sonhar comer alimentar moufar dar ao dente
Da planta do pé até a bacia: o sustentáculo. Aquela que se liga
diretamente com a terra e dela tira o que é necessário para crescer pra cima
(tudo que é ruim cresce pra baixo, não se distraia quando te pedem para olhar
os cadarços, estão apenas fingindo te ajudar). A metafórica raiz. Quando
desequilibrada, gera o cambaleio do corpo comum. A perna aguenta, sustenta e
garante a estabilidade, não tente alçar vôos senão estiver com elas muito bem
preparadas.
“Preserve o calcanhar” diria aquiles; “preserve o joelho”, diria aquilo.
A coxa firme, a panturrilha definida, os pés arqueados, abertos e amplos
abraçando o chão com a maior superfície de contato possível. A virilha acumula
muitas tensões, quando relaxadas fazem tudo correr bem, e daí podemos correr
melhor. O períneo é a fonte, daonde se distribuem os afluente energéticos que
vão garantir a saúde destes membros. Você está pront_ agora.
Sabidamente o centro do ser é seu umbigo, seu meridiano, seu ponto-médio
demarcado por um buraco com fim. Este umbigo, por sua parte, um infinito: vazio
exposto. Penso que não teria então, espaço para um umbigo neste corpo -- para
que o vazio num corpo tão cheio? Neste corpo de palavra referências, metadados,
notas de rodapés preenchem o espaço vago entre vazio e matéria como sistemas de
órgãos, comunidades de vísceras cheias de sangue, como sacos de gordura,
apêndices de bile e etcétera etcétera etcétera.
Gosto desta parte de ossos, costelas, coluna vertebral; espaço de
pulmões, vesículas e estômagos (e borboletas?). Gosto do intestino (dos dois)
pela eterna lembrança de que mesmo o prazer pode se tornar uma merda. Gosto
também do coração que pulsa e bate e expulsa sangue vermelho. Mas gosto,
principalmente, deste tronco-elo trancado atrás da caixa toráxica, deste
meio-do-caminho no qual todas as partes aqui se ligam, se juntam para formar,
finalmente, esta forma.
O cotovelo é o mais curioso. No meio, como se tivesse em cima do muro,
ele decide se quem vai fazer mais esforço é a parte de cima ou a parte de
baixo. Ele não aguenta o peso, mas apoia o resto do todo cansado. O bíceps,
conhecido pelos antigos como muque, tem como função o trabalho mais duro,
pesado, talvez o mais injusto e ingrato, mas ao mesmo tempo, o mais violento:
ele mostra poder e tentar dizer que, diante de qualquer problema, ele resolve,
suportando o mundo em suas costas. O pulso sempre vomita. Ele tem hérnia de
hiato e esôfago irritado. Tem raiva de ser a ponte da mão com braço e queria
ser protagonista da festa. Abre, se dilacera quando carrega mais do que pode,
mas nunca, em momento algum, recebe os louros de seu trabalho. A mão é
filosofia, mas já foi por demais valorizada, os dedos também. As unhas também.
Os braços, no fundo, são tudo aquilo que não são a mão.
Nesse texto chamado braço quem fala é o cotovelo. O cotovelo é o mais curioso.
E fala por ele mesmo. Dobra sempre que tentam lhe obrigar a fazer algo. Dá
choque quando bate onde não deve. Escreve o corpo com sua pele que não dói nem
quando queima. O cotovelo é a mãe do braço. E abraça com seu traço de palavra
escondida, um segredo ou enigma que ninguém lembrou de dizer.
No lobo central acontece o planejamento das ações e movimentos de toda
essa estrutura. E também o pensamento. A cabeça acomoda o cérebro, que
supostamente é a parte racional de todo o conjunto. Também supostamente
controla todo o resto, todos esses membros que aqui tem voz própria e assumem
seu próprio controle. Aqui, nessas pequenas descrições de partes que formam um
todo, essa parte, especificamente, não exerce controle algum.
As partes desse corpo trabalham de forma voluntária, cada um com sua
espécie de próprio lobo central, sentindo e respondendo à cada estímulo,
acumulando sensações e transmitindo-as para todo o resto. Como uma expansão do
cérebro para o todo - ao contrário de uma concentração de sentidos, emoções e
ligações nesse único fragmento corpóreo.

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